Entrevista

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WORK IN PROCESS – N°3

WORK IN PROCESS

Mergulhe no dia a dia das equipes da Processium por meio de uma série de entrevistas com quem está no comando dos nossos projetos. Uma imersão no saber-fazer, nas trajetórias e na paixão que dão vida à nossa empresa.

N°3 – Avaliação do Ciclo de Vida

Formada em engenharia química no Brasil e apaixonada por questões ambientais, Natália coloca hoje a ACV no centro de sua trajetória acadêmica e profissional na Processium do Brasil. Na interseção entre dados, método e estratégia, ela analisa os principais desafios para apoiar decisões mais responsáveis. Nesta entrevista, ela compartilha sua visão sobre a ACV, seu papel central e os desafios a serem enfrentados. Uma visão valiosa sobre uma ferramenta indispensável para a transição.

Você pode nos contar sobre sua formação acadêmica?

Estudei Engenharia Química na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), no Brasil. Comecei meu mestrado na mesma universidade em 2021 e pretendo concluí-lo nos próximos anos, em paralelo ao meu trabalho na Processium.

Durante meu tempo na Universidade, desenvolvi um forte interesse por temas relacionados à sustentabilidade. Me inscrevi em cursos de educação ambiental e Avaliação do Ciclo de Vida (ACV) e me envolvi em um programa no campus focado em promover a conscientização ambiental entre a comunidade acadêmica. Por meio dessas experiências, fui moldando gradualmente minha compreensão sobre sustentabilidade. Uma das principais lições foi que sustentabilidade não se resume apenas ao comportamento individual como consumidor, mas está profundamente ligada à forma como organizamos nossa sociedade e economia como um todo.

Essa perspectiva influenciou fortemente tanto meu caminho acadêmico quanto minhas escolhas profissionais. Minha dissertação de mestrado foca na “Avaliação do Ciclo de Vida de um processo de biorrefinaria em estágio inicial de desenvolvimento”, o que está alinhado com a filosofia da Processium de considerar a sustentabilidade como um aspecto chave do desenvolvimento tecnológico.

Como foi sua chegada ao Processium do Brasil?

Entrei na Processium do Brasil em 2019 como estagiária ao final da minha graduação. Durante esse período, trabalhei principalmente com engenharia de processos, focando em design e modelagem de processos. Desde o início, me envolvi em projetos de desenvolvimento de bioprocessos. Estava alinhado com o que eu buscava profissionalmente, então fiquei muito feliz em continuar na Processium após me formar como engenheira química.

Em 2023, a Processium criou um grupo de trabalho para começar a incorporar a Avaliação do Ciclo de Vida (ACV) em nosso trabalho, e desde então tenho me envolvido muito com isso. Essa evolução também está alinhada com minha formação acadêmica e meu interesse por questões ambientais, e agora desenvolvi forte experiência nessa área tanto por meio dos meus estudos de mestrado quanto dos diversos projetos em que trabalhei na Processium.

Você está trabalhando extensivamente na Avaliação do Ciclo de Vida para sua tese. O que te atraiu nesse tema na época?

Para mim, era principalmente uma questão filosófica. No início, eu queria entender melhor as alegações ambientais feitas pelas empresas sobre suas tecnologias, porque sabia que eram complexas e frequentemente baseadas em suposições que nem sempre são claramente explicadas.

À medida que explorava o tema mais a fundo, passei a me interessar não apenas pelas próprias afirmações, mas também por como avaliar a sustentabilidade de forma estruturada e rigorosa. A ACV oferece uma metodologia multicritério com indicadores mensuráveis, o que torna as avaliações de sustentabilidade mais robustas. Também dá mais significado ao trabalho que realizamos como engenheiros de processos, ao vincular diretamente a avaliação ambiental ao desenvolvimento de processos e apoiar a seleção da melhor opção de processo sob uma perspectiva experimental.

Para quem não conhece o assunto, como você explicaria o que é ACV e para que ela é usado na indústria?

A ACV oferece uma visão abrangente e multicritério de como toda a cadeia de valor de um produto impacta o meio ambiente, desde a extração de matérias-primas até o fim de sua vida útil.

Basicamente, ACV é uma ferramenta que diagnostica o impacto ambiental de um produto ou serviço. Por impacto ambiental, entendemos uma série de indicadores como potencial de aquecimento global, consumo de água, consumom de recursos fósseis, impacto sobre a saúde humana, potencial de acidificação, etc. Como qualquer ferramenta, pode ser mal utilizada, mas existem diretrizes científicas bem estabelecidas que garantem resultados confiáveis quando aplicada corretamente.

Que tipo de decisões ou otimizações uma ACV pode ajudar a apoiar em um projeto?

Uma Avaliação do Ciclo de Vida pode apoiar os clientes em diferentes momentos do desenvolvimento tecnológico. Uma ACV Screening pode ser aplicada a um processo em estágio inicial de desenvolvimento para apoiar o eco-design, fornecendo insights iniciais sobre pontos críticos ambientais na cadeia de valor e identificando possíveis ações de mitigação. Também pode avaliar como o desempenho ambiental de uma determinada tecnologia se compara a uma referência no mercado.  Uma ACV padronizada e revisada por pares, por outro lado, fornece uma descrição mais detalhada dos impactos ambientais e, em última análise, possibilita a divulgação dos resultados da ACV ao público, o que pode atrair consumidores, potenciais parceiros e investidores.

Como engenheiros que atuam em P&D, precisamos considerar três dimensões chave: técnica, econômica e ambiental. A LCA traz o terceiro elemento para a mesa, identificando pontos críticos dentro da cadeia de valor, gerando discussões sobre como melhorar a sustentabilidade dos produtos e fornecendo informações para apoiar os tomadores de decisão em escolhas relacionadas ao negócio, como localização da fábrica, aplicação do produto e fornecedores-chave.

Como é normalmente realizada uma LCA para um cliente industrial? Quais são os principais passos?

A LCA é realizada em 4 etapas principais, que normalmente são realizadas de forma iterativa:

  • Definição de objetivo e escopo

Primeiro definimos com o cliente qual produto está sendo avaliado, incluindo etapas de produção, aplicação e cenários de fim de vida, além de fatores como localização da fábrica, matérias-primas e cadeias de suprimentos. Também definimos um produto de referência para comparar resultados, já que indicadores ambientais como a pegada de carbono precisam de uma referência para serem devidamente interpretados. Por exemplo, na ACV de um bioproduto, geralmente comparamos seu impacto ambiental com o produto fóssil no mercado que ele provavelmente substituirá.

  • Inventário do ciclo de vida

Esse é essencialmente o balanço de massa e energia, e muitas vezes a etapa mais trabalhosa. Coletamos todos os insumos e saídas do sistema : matérias-primas, utilidades, emissões, resíduos, etc. As habilidades de engenharia de processos são especialmente relevantes nesta etapa porque permitem uma compreensão mais profunda dos dados de processos

  • Avaliação de impacto do ciclo de vida

Aqui, “traduzimos” o inventário em impactos ambientais ao longo do ciclo de vida usando métodos de avaliação de impacto. Por exemplo, calculamos o impacto de uma emissão de gás em termos de potencial de aquecimento global, esgotamento do ozônio, potencial de acidificação, etc. Vários métodos padronizados e internacionalmente aceitos estão disponíveis. Selecionamos com o cliente o método mais relevante para cada estudo de ACV com base nas categorias ambientais a serem analisadas e no contexto em que os resultados serão utilizados.

  • Interpretação

O principal objetivo nesta fase é identificar os pontos fortes e fragilidades da tecnologia em estudo e propor e avaliar soluções que possam mitigar hotspots. No nosso trabalho de desenvolvimento de processos, essa etapa ajuda a orientar melhorias de processos e estratégias de sustentabilidade.

Quais são os principais desafios ao conduzir uma ACV hoje?

ACV é uma ferramenta e, como toda ferramenta, pode ser mal utilizada. Se a ACV for baseada em dados de baixa qualidade e adotar pressupostos pouco realistas, os resultados podem ser enganosos. Portanto, eu diria que existem dois principais desafios na condução do ACV:

  • Garantir a boa qualidade dos dados. Na Processium, trabalhamos com tecnologias em desenvolvimento, então o inventário de ciclo de vida geralmente é baseado em estimativas de engenharia ou operação da planta piloto (em vez do balanço de massa e energia de uma planta industrial existente), com escolhas-chave feitas com base na expertise da Processium em desenvolvimento de processos. Portanto, precisamos estar atentos às incertezas relacionadas ao desenvolvimento de processos e garantir que elas sejam comunicamos corretamente.
  • Definir pressupostos realistas para modelar processos produtivos fora dos limites do sistema. Está associado à modelagem do que chamamos de “sistemas background”, que consistem em todos os elos da cadeia de suprimentos que não estão sob o controle da empresa que encomendou o estudo, ou para os quais não há dados específicos do processo em estudo disponíveis. Embora os sistemas background, como o fornecimento de matérias-primas e o descarte pós-uso de produtos, estejam fora dos limites do sistema do estudo, seu impacto nos resultados de ACV é frequentemente muito expressivo. Portanto, a modelagem realista do sistema de fundo é fundamental, mas também pode ser bastante desafiadora porque muitas vezes exige uma visão multidisciplinar.

Como você vê a evolução do papel da ACV na indústria nos próximos anos?

A ACV está progressivamente mais importante na indústria no contexto da transição para uma economia mais sustentável – o que está se tornando mais imperativo diante da recente intensificação da crise climática e das incertezas geopolíticas acerca do fornecimento de petróleo e gás.

Por um lado, a ACV desempenha um papel importante na padronização da estimativa e comunicação dos benefícios ambientais de novos produtos e tecnologias. Hoje em dia, ter uma ACV robusta é fundamental para solicitar subsídios governamentais, atrair parceiros e investidores, e atender às demandas de consumidores cada vez mais engajados com o tema do meio ambiente.

Por outro lado, a ACV, assim como outros métodos de avaliação ambiental (pegada de carbono, pegada hídrica, etc.), são ferramentas à disposição da indústria que, se aplicadas nos estágios iniciais do desenvolvimento tecnológico, podem ser uma vantagem competitiva, pois permitem decisões mais informadas e investimentos assertivos. Em resumo, a ACV pode oferecer apoio essencial para uma busca genuína pela sustentabilidade em P&D na indústria.

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